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domingo, 9 de janeiro de 2011

Reformismo revolucionário: a estratégia da esquerda latina

"Estado", "política", "história", "revolução" são as ferramentas da esquerda latino-americana para atacar as consequências e também as causas do capitalismo, promovendo ao mesmo tempo a integração do Continente em termos políticos, econômicos, sociais e culturais. A estratégia pode ser condensada na fórmula do pensador judaico-romeno Lucien Goldmann: "reformismo revolucionário".
Por Luiz Marques*

Algumas palavras pareciam condenadas à lata de lixo, sob a pressão doutrinária das últimas décadas. "Estado" é uma delas. Acusado de perdulário, mastodôntico e ineficiente em contraposição à livre iniciativa, apresentada como paradigma, o aparelho estatal foi execrado para justificar as desregulamentações e o desmonte que vitimaram os serviços públicos. Embalados pelo canto de sereia do fenômeno divulgado na condição de uma tendência inexorável, que converteria o planeta em uma aldeia global, muitos inclusive, iam ao cúmulo de classificar de inútil a escolha de presidente para os Estados nacionais. As eleições teriam perdido o sentido frente a uma realidade na qual as linhas principais da política econômica seriam ditadas pelo FMI e o Banco Mundial. Das "Diretas já" às "Indiretas sempre", um passo à frente, dois atrás.

Considerando que, quem fala Estado fala política, esta sob a hegemonia do neoliberalismo foi também minimizada e criminalizada. Basta lembrar o argumento de Fernando Henrique Cardoso para reprimir a greve dos petroleiros no primeiro mandato: "Trata-se de um movimento... político". Pior, contrário à intenção tucana de privatização da Petrobrás. Dê-lhe tanques.

Analiticamente, para o príncipe do Consenso de Washington, os petroleiros cometiam então três delitos: a) manifestavam-se fora do Congresso Nacional, único espaço para a prática política tida por legítima; b) intervinham como um corpo coletivo organizado, quando apenas a desobediência civil de indivíduos avulsos era admitida; c) defendiam o patrimônio público construído por várias gerações, numa época em que moderno significava entreguismo. A repressão manu militari sobre os trabalhadores mobilizados marcou o início de um retrocesso civilizacional de resultados perversos para o povo brasileiro.

FHC, no caso, agiu de acordo com uma antiga aspiração das elites, eliminar a política das ruas e, no limite, esconjurá-la para longe do próprio Estado. Não à toa, Platão propunha para os postos hierárquicos de mando na sociedade os "filósofos". Saint-Simon, os "industriais". John Galbraith, os "tecnocratas". Hoje fala-se nos "gestores", na tentativa ainda de elidir a dinâmica objetiva da luta de classes e despolitizar a vontade subjetiva dos governantes. No fundo, essa visão gerencial sobre o exercício do poder central reflete a autonomização, mais imaginária que real, das políticas públicas no que concerne às questões estruturais e ao conteúdo de cada projeto político-ideológico. Como se as políticas públicas não tivessem governo.

Compreende-se assim que um dos cinquenta executivos de destaque entre os países emergentes, conforme a tabela de celebridades do Financial Times, tenha descrito Dilma Rousseff como "uma gestora pública, tecnocrata de boa formação, de bom senso e experiente, o que será muito bom para o Brasil" (Zero Hora, 12/12/2010). A completa assepsia política da descrição traduz o desejo atávico das classes dominantes, desde a remota Antiguidade.

Do triunfalismo à surpresa

Francis Fukuyama, em 1989, com espalhafatosa cobertura midiática, anunciou o fim da história e fixou um programa máximo (sic) para o Ocidente: a economia de mercado e a democracia representativa. Inaugurava a ideologia imperialista da Nova Ordem Mundial. A senha para um padrão implacável de relações econômicas, que não aceitavam discussão e cobravam obediência imediata sob ameaça de expulsar os atores da cena e aprisioná-los em uma dependência abjeta, como se fossem escravos de novo, denunciou o geógrafo Milton Santos com o neologismo "globalitarismo", para realçar o viés totalitário da globalização neoliberal.

A utopia socialista que movia a rebeldia era condenada a um passado jurássico, junto com os ideais da cidadania ativa. O capital, triunfante, decretava a paz perene. Como no verso de T. S. Eliot, "sonhando com sistemas tão perfeitos em que o bem seja de todo dispensável". Doce ilusão. O Zapatismo, que veio à luz no emblemático dia em que entrava em vigor a North American Free Trade Agreement (Nafta), o tratado de livre comércio dos Estados Unidos com o Canadá e o México, em 1° de janeiro de 1994, mostrou que a recusa à exploração e à opressão mantinha-se acesa sob as cinzas. Em paralelo, a experiência do Orçamento Participativo nos anos 90 revelou que a socialização da política é o melhor antídoto à apatia das camadas empobrecidas, à corrupção e às demasias burocráticas da administração pública.

Em uma conjuntura nacional e internacional repleta de adversidades, a criatividade e a irresignação estiveram localizadas no eixo da resistência que ligou Chiapas a Porto Alegre simbolicamente. Esses centros laboratoriais acuaram o medo e fizeram ressurgir a esperança. Os pobres tornavam a ser cidadãos. A dominação capitalista não afigurava-se como uma fatalidade ou um destino, "surpreendendo aqueles que não acreditavam mais na possibilidade de mudanças sociais e que haviam abandonado a história", enfatizou a socióloga Laura Tavares Soares (Os custos sociais do ajuste neoliberal na América Latina, SP, Ed. Cortez, 2000).

A dialética corcoveava, rejuvenescida na linguagem sem esquematismos do subcomandante Marcos e nas assembléias comunitárias do prefeito Olívio Dutra. Preparava-se o terreno para o I Fórum Social Mundial. Movimentos tradicionais (com vetor no trabalho) somavam-se aos contemporâneos (feministas, ecológicos, contra a fome, etc.) para questionar a gramática da exclusão, reatualizar o valor da solidariedade e devolver a dignidade à política. As promessas do paraíso reaganista, calcadas no fetichismo da mercadoria, esfumavam-se. As bandeiras vermelhas regressavam às praças. Mas havia pedras no caminho. E a "imprensalão" tencionou à procura de desvios, fabricando uns tantos com sensacionalismo e ódio de classe. Assustados e incapazes de uma leitura correta sobre os acontecimentos, os setores médios afastaram-se da estrela guia.

A militância petista não se intimidou, porém, e a caravana popular seguiu avante, comunicando-se em portunhol. Ao lado, os cães ladravam e ensaiavam o frustrado impeachment do presidente Lula. O Estado reassumia, aos poucos, suas funções clássicas para atender as demandas da população, e um papel regulatório na economia para alavancar o desenvolvimento sustentado e combater as desigualdades sociais e regionais. "Estado", "política", "história" foram palavras recontextualizadas graças à ascensão das forças antineoliberais na AL.

Céu com nuvens carregadas

Vislumbram-se outras batalhas no horizonte. A direita articulada em torno do Tea Party, o nó górdio do Partido Republicano dos EUA, em um ambiente recessivo e agravado com o corte nos gastos sociais, redobra a disposição conservadora de organizar o conjunto das relações sociais pela premissa da mercantilização de tudo e todos, com um script que mescla individualismo e belicismo. Se o roteiro causa a sensação de um déjà vué porque o novíssimo ideário direitista reconduz o mundo ao caos societal, isto é, à condição natural hobbesiana que faz do homem lobo do homem. A barbárie continua pedindo passagem para romper o contrato social de proteção aos direitos e espalhar a miséria e o sofrimento. Fuck you!

A postura intransigente do Tea Party aponta para uma posição de confronto com as nações que, soberanas, buscam superar o status quo. Sem que se possa esperar um freio à sede de sangue da ultradireita (vide post de Emir Sader: Obama e Lula, 09/12/2010) e nem consideração com o princípio elementar da liberdade de expressão (vide a perseguição, esta de fato terrorista, ao portal do Wikileaks). Perigos e dilemas rondam o futuro. O Norte direitiza-se com extremismo; o Sul esquerdiza-se, embora com moderação e respeito à institucionalidade. É possível antecipar tensões e retaliações, com o alargamento da crise, do desemprego e da anomia social no território estadunidense. O Irã que se cuide.

Enquanto isso, o Brasil avança, reduz a pobreza, projeta um Estado de bem-estar social. Diante das inusitadas conquistas, referendadas com a vitória de Dilma, Lula utiliza o bordão "como nunca antes..." para chamar a atenção sobre o que está em curso no país. Tem nome, "Revolução Democrática". Rafael Correa, o presidente do Equador, refere-se à "Revolução Cidadã". Hugo Chávez, o presidente da Venezuela, à "Revolução Bolivariana", em homenagem ao lendário libertador Simon Bolívar. Evo Morales, o presidente da Bolívia, à "Revolução Democrática e Cultural" como uma ponte para o "Neo-socialismo".

O denominador comum é a idéia de "revolução", mais um mote maldito esquecido no porão que sacode a poeira e dá a volta por cima. Nenhuma alusão à luta armada, mas sim à elevação do nível de consciência das maiorias, ao empoderamento dos movimentos sociais, aos vínculos orgânicos desses com os partidos políticos comprometidos com as mudanças e aos progressos institucionais para aprofundar a democracia e a justiça social. "Não façam o que eu fiz", aconselhou Fidel Castro em reunião com um grupo de líderes reformadores sobre a questão do método (Che Guevara, 80Th Anniversary, Trilogy Collection, DVD).

"Estado", "política", "história", "revolução" são as ferramentas da esquerda latino-americana para atacar as consequências e as causas do capitalismo, promovendo ao mesmo tempo a integração do Continente em termos políticos, econômicos, sociais e culturais. A estratégia pode ser condensada na fórmula do pensador judaico-romeno Lucien Goldmann: "reformismo revolucionário". Paradoxal, só na aparência, como o realismo mágico de nossa literatura. La nave va.

*Luiz Marques é professor de Ciência Política da Universidade Federal do Rio Grande do Sul (UFRGS)

Fonte: Opera Mundi

quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Bolívia reconhece oficialmente Estado palestino independente

O presidente da Bolívia, Evo Morales, anunciou nesta quarta-feira (22) o reconhecimento da Palestina como Estado independente e soberano, como fizeram Brasil e Argentina este mês.

“Assim como outros países, como o Brasil, a Bolívia receonhece o Estado palestino, sua independência, sua soberania”, disse o presidente boliviano, Evo Morales, em uma coletiva de imprensa na sede do governo, segundo a rede de televisão venezuelana Telesur.

Morales disse também que a decisão foi tomada após análise do governo, que constatou “graves problemas que os palestinos têm”, com os Estados vizinhos, e que “a Bolívia não quer continuar esperando a solução de braços cruzados”.

“A Bolívia não podia mais esperar diante dos problemas de direitos humanos, temas territoriais, temas de soberania que a Palestina precisa enfrentar”, disse Morales.

Na coletiva, Morales disse também que Israel “comete um genocídio” contra o povo palestino e pediu a outros países e organismos internacionais que assumam a responsabilidade para tentar conter Israel. Em janeiro de 2009, Morales rompeu relações com Israel como resposta à ofensiva militar na Faixa de Gaza, que deixou milhares de mortos.

Na semana passada, durante a 40ª cúpula do Mercosul em Foz do Iguaçu, o presidente boliviano havia anunciado que seu país reconheceria o Estado palestino. “A Bolívia enviará uma carta ao presidente da Palestina reconhecendo-a como Estado independente e soberano”, adiantou Morales.

Onda de reconhecimento


O reconhecimento boliviano ao Estado Palestino independente com as fronteiras de 1967 ocorre depois de Brasil e Argentina tomarem a mesma decisão no início de dezembro. O Uruguai formalizará as relações diplomáticas com a Palestina no começo de 2011, com a instalação de uma embaixada.

O presidente palestino, Mahmud Abbas, expressou satisfação com o reconhecimento por parte da Bolívia, segundo a agência palestina Wafa.

O negociador palestino, Saeb Erekat, também agradeceu “ao povo irmão boliviano e ao seu presidente, Evo Morales” e afirmou que o reconhecimento “é um grande passo na direção correta, alinhado com o Direito Internacional e coerente com a política exterior dos países latino-americanos”.

Com informações do Opera Mundi




Fonte - vermelho.org

domingo, 12 de dezembro de 2010

Entrevista com Julian Assange: quem é e o que quer o Wikileaks

Veja a entrevista, com legendas em português, com Julian Assange, fundador do Wikileaks, realizada pelo TED em julho deste ano, e entenda os motivos da caçada do governo americano ao site mais famoso do mundo. Assange também revela como o Wikileaks conseguiu divulgar mais informações sigilosas do que todas as outras mídias juntas em todo o mundo. Vale à pena ver a entrevista até o fim.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Assembleia Nacional da Venezuela aprova Lei do Poder Popular

A Assembleia Nacional da Venezuela sancionou na noite de quinta-feira (9) a Lei Orgânica do Poder Popular, que dá as bases para que as comunidades organizadas possam exercer o pleno direito à soberania, à democracia participativa protagonista e seja corresponsável em formas de auto-governo exercendo de maneira direta o poder. 

   
Deputados aprovam lei na Assembleia Nacional
O artigo 7 da referida lei estabelece que uma das finalidades do poder popular é impulsionar o fortalecimento da organização do povo, em função da consolidação da democracia protagonista revolucionária e construir as bases para a sociedade socialista, democrática, de direito e de justiça.

Além disso, este instrumento estabelece a geração das condições para garantir que a iniciativa popular, no exercício da gestão social, assuma funções, atribuições e competências de administração, prestação de serviços e execução de obras. 

O artigo 9 indica que as organizações do poder popular são as diferentes formas do povo organizado que reúnem cidadãos e cidadãs com objetivos e interesses comuns em função de superar dificuldades e promover o bem-estar coletivo. 

Já o artigo 29 da Lei Orgânica do Poder Popular estabelece que os órgãos, entes e instâncias do Poder Público devem adotar medidas para permitir às organizações produtivas de propriedade social gozar de prioridade e preferência nos processos de contratação pública para a aquisição de bens, prestação de serviços e execução de obras. 

A esse respeito, o presidente da Comissão Permanente de Participação Cidadã da Assembleia Nacional, deputado Ulisses Daal, assinalou que com este instrumento se constrói a base legal para que as pessoas, através dos meios de participação estabelecidos na Constituição, possam exercer de maneira direta funções de governo e alcançar o desenvolvimento pleno da soberania. 

“Trata-se de pôr em prática o que estabelece a Constituição quanto à participação direta, ao exercício direto de funções de governo e de desenvolvimento pleno da soberania com instância de participação em nível de governo, entidades econômicas, controladoria social, enfim, todos os espaços e âmbitos da sociedade”, assegurou o legislador. 

Por outro lado, Daal descartou que este novo instrumento legal violente o estabelecido na Carta Magna, tal como o que haviam apontado os deputados de oposição. Para ele, a lei é a afirmação do coletivo que impulsiona propostas de melhorias sociais. 

A aprovação da Lei do Poder Popular representa um grande passo adiante no processo revolucionário venezuelano. Impulsiona a democracia popular, cria bases sólidas para a edificação de um sistema político de novo típo, antípoda das democracias burguesas. O fortalecimento do poder popular venezuelano contrasta com as tendências contemporâneas de hipertrofia dos poderes da burguesia monopolista e financeira aliadas do imperialismo.

Ao mesmo tempo, o fortalecimento da Revolução Bolivariana na Venezuela é um estímulo para o avanço das lutas democráticas e patrióticas antiimperialistas em toda a região da América Latina e Caribe.


 Agência Venezuelana de Notícias.

sábado, 27 de novembro de 2010

Unasul na defesa da soberania Sul-Americana

No encontro que marcou sua despedida da Unasul (União de Nações Sul-Americanas), o presidente brasileiro fez duras críticas aos Estados Unidos e ao FMI.

Os líderes do bloco aprovaram sexta-feira (26) a criação de um protocolo contra os golpes militares na América do Sul, prevendo sanções econômicas e políticos aos governos que forem impostos de forma antidemocrática. Na região, sempre é bom lembrar, as conspiração golpistas passam invariavelmente pelas embaixadas dos EUA.

O protocolo democrático estabelece a suspensão, do âmbito da Unasul, dos países que sofram golpes de Estado e autoriza os países vizinhos a aplicar um bloqueio comercial.

Contra o golpismo
Elaborada pelo Equador, que passou a presidência temporária do bloco à Guiana, a proposta chegou a gerar desentendimento entre os chanceleres da região sobre seus critérios de aplicação. Mas o documento final acabou sendo aprovado pelos presidentes.

"Banir os golpes de Estado da América do Sul – e temos que banir de toda a América Latina – é um compromisso da maior importância, e a Unasul mostrou que pode ajudar", afirmou o chanceler brasileiro, Celso Amorim, a jornalistas em Georgetown.

A seu ver, a medida aprovada pelo bloco pode ajudar a evitar o efeito cascata de desestabilização na região, tendo como precedente a deposição do presidente hondurenho Manuel Zelaya, no ano passado.

Para Amorim, o mau exemplo de Honduras contribuiu para que os presidentes reagissem imediatamente durante a recente crise no Equador, que viveu, no final de setembro, uma tentativa de golpe contra o presidente Rafael Correa.

Antes de Correa, foram vítimas de tentativas golpistas os presidentes da Venezuela (abril de 2002) e da Bolívia (2008). Nos dois casos, os golpistas foram derrotados. Já em Honduras, os “gorilas” acabaram vitoriosos em 2009. As embaixadas norte-americanas tiveram participação ativa em todos esses movimentos.

"A carta democrática da Unasul será fundamental para afastar riscos à ordem institucional na região", afirmou Lula em discurso na 4ª Cúpula da Unasul, em Georgetown, capital da Guiana

Elites submissas
"O que é importante é que não se pode abrir mão, em momento algum, de construir uma América do Sul forte, sem analfabetos, sem desnutrição, com avanço científico e tecnológico. Mas, sobretudo, uma América do Sul onde cada cidadão sul-americano tenha orgulho de ser do jeito que nós somos."

Ao enaltecer a Unasul, Lula criticou os governantes sul-americanos das décadas de 1980 e de 1990 por não terem avançado na integração regional e também por terem aceitado os modelos econômicos ditados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Esses programas, com o mesmo caráter reacionário dos que estão sendo aplicados hoje na Grécia e Irlanda, eram vazios de conteúdo social, na opinião do presidente.

Ele também disse sentir-se ofendido quando via, no passado, fotos nos jornais dos técnicos do FMI desembarcando no Brasil. ao final de cada ano, para negociar as condições de novos empréstimos. Para ele, esses governos agiram de forma "submissa às elites" e desprezaram o conceito de soberania.
"Alguns países precisaram ser refundados", declarou Lula, valendo-se de um termo caro aos líderes do bolivarianismo - além de Chávez, o boliviano Evo Morales e o equatoriano Rafael Correa.

Nova etapa

Lula voltou a criticar a reação dos EUA ao anúncio do acordo na área nuclear entre o Brasil, a Turquia e o Irã, em maio passado. Afirmou que os EUA jamais poderão resolver o contencioso com o Irã porque o país imperialista é um "criador de problemas".

A Unasul inicia uma nova etapa, com a Guiana na presidência e o compromisso de dar novos passos para a integração regional e a consolidação da região como zona de paz. O relatório do presidente equatoriano, Rafael Correa, ao inaugurar a IV Cúpula em Georgetown em presença de seus homólogos da Argentina, Brasil, Colômbia, Guiana, Paraguai, Suriname, Venezuela e os chanceleres de Bolívia, Chile, Peru e Uruguai, traçou a pauta do encontro.

Uma ovação fechada foi a melhor homenagem ao primeiro Secretário Geral do bloco regional, o ex-presidente argentino, Néstor Kirchner, falecido recentemente e que recebeu o reconhecimento póstumo de todos no Centro Internacional de Convenções da Guiana.

Protocolo democrático
Ainda não se sabe quando se dará sua substituição até a próxima reunião dos mandatários em Mar del Plata, Argentina. A IV Cúpula esteve carregada de notícias transcendentes, como a aprovação do Protocolo Democrático para evitar futuras tentativas de golpes de Estado.

O documento aprovado foi de consenso, a única mudança realizada foi o de usar "protocolo" em lugar de "cláusula" que foi o termo utilizado pelos Chanceleres. O mandatário da Guiana, Bharrat Jagdeo, ao assumir a presidência pró témpore da Unasul destacou a importância de que este mecanismo de integração seja incondicional na aplicação do protocolo democrático lembrado por unanimidade.

"Independentemente das ideologias dos países que tenham suas democracias ameaçadas, afirmou Jagdeo, temos que assegurar que isto (golpes de Estado) não se passe em nossa região".

Reconciliação 
Ao final do encontro outra notícia inesperada foi o anúncio de Correa e do presidente colombiano, Juan Manuel Santos, da restauração plena de suas relações, interrompidas após o bombardeio colombiano a Angostura em março de 2008.

"O destino tem que ser traçado, não sofrido, os desafios são grandes, mas é maior ainda nossa esperança", afirmou o presidente pró témpore que sai ao vislumbrar uma região de paz, sem bases militares estrangeiras e capaz de dirigir por si mesma seus próprios conflitos.

Fonte 

redação vermelho.org.br , com agências

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Noam Chomsky: As 10 estratégias de manipulação midiática

O professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachussetts, Noam Chomsky, elaborou uma lista das "10 Estratégias de Manipulação" através da mídia. O Mundo de Fato publica abaixo.

Manipulação da mídia
A manipulação da mídia
10 Estratégias de Manipulação

Por Noam Chomsky

A estratégia da distração
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O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes.

A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir que o público se interesse pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. "Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado; sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja com outros animais (citação do texto "Armas silenciosas para guerras tranquilas").


Criar problemas e depois oferecer soluções

Esse método também é denominado "problema-ração-solução". Cria-se um problema, uma "situação" previsa para causar certa reação no público a fim de que este seja o mandante das medidas que desejam sejam aceitas.

Por exemplo: deixar que se desenvolva ou intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o demandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para forçar a aceitação, como um mal menor, do retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços púbicos.

A estratégia da gradualidade 


Para fazer com que uma medida inaceitável passe a ser aceita basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos consecutivos. Dessa maneira, condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990. Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

A estratégia de diferir
Outra maneira de forçar a aceitação de uma decisão impopular é a de apresentá-la como "dolorosa e desnecessária", obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrificio imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente.

Logo, porque o público, a massa tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que "tudo irá melhorar amanhã" e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isso dá mais tempo ao público para acostumar-se à ideia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

Dirigir-se ao público como se fossem menores de idade

A maior parte da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade mental, como se o espectador fosse uma pessoa menor de idade ou portador de distúrbios mentais.

Quanto mais tentem enganar o espectador, mais tendem a adotar um tom infantilizante. Por quê? "Se alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, em razão da sugestionabilidade, então, provavelmente, ela terá uma resposta ou ração também desprovida de um sentido crítico (ver "Armas silenciosas para guerras tranquilas")".

Utilizar o aspecto emocional mais do que a reflexão
Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional e, finalmente, ao sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de aceeso ao inconsciente para implantar ou enxertar ideias, desejos, medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos...

Manter o público na ignorância e na mediocridade


Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. "A qualidade da educação dada às classes sociais menos favorecidas deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que planeja entre as classes menos favorecidas e as classes mais favorecidas seja e permaneça impossível de alcançar (ver "Armas silenciosas para guerras tranquilas").

Estimular o público a ser complacente com a mediocridade 

Levar o público a crer que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto.

Reforçar a autoculpabilidade

Fazer as pessoas acreditarem que são culpadas por sua própria desgraça, devido à pouca inteligência, por falta de capacidade ou de esforços. Assim, em vez de rebelar-se contra o sistema econômico, o indivíduo se autodesvalida e se culpa, o que gera um estado depressivo, cujo um dos efeitos é a inibição de sua ação. E sem ação, não há revolução!

Conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem
No transcurso dos últimos 50 anos, os avançosacelerados da ciência gerou uma brecha crescente entre os conhecimentos do público e os possuídos e utilizados pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o "sistema" tem disfrutado de um conhecimento e avançado do ser humano, tanto no aspecto físico quanto no psicológico.

O sistema conseguiu conhecer melhor o indivíduo comum do que ele a si mesmo. Isso significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior do que o dos indivíduos sobre si mesmos.

Fonte: Argenpress, reproduzido por dital

sábado, 20 de novembro de 2010

Cristovam Buarque: Gordura e crescimento

Gordura e superpopulação deixaram de ser sinais de riqueza inteligente, tanto para cidades quanto para pessoas. Mas as pessoas ainda resistem em perceber que a gordura que as rodeia, na forma de bens, consumidos ou de patrimônio, não é mais sinal de riqueza inteligente.


por Cristovam Buarque*

Durante séculos, acreditamos que as cidades ficavam melhores à medida que aumentavam. Faz pouco tempo, percebemos a necessidade de reduzir as cidades, para viver melhor fora das megalópoles. Já é possível ser mais feliz em cidades menores.

Também durante séculos, acreditamos que as mulheres e os homens gordos eram mais saudáveis e mais ricos, carregando no corpo as provas da riqueza, as lembranças do prazer de comer e o fim da angústia da fome. Hoje, pelo contrário, o símbolo da riqueza e da beleza é a esbeltez. Nas sociedades modernas, são os pobres que engordam; os ricos gastam fortunas para emagrecer.

Gordura e superpopulação deixaram de ser sinais de riqueza inteligente, tanto para cidades quanto para pessoas. Mas as pessoas ainda resistem em perceber que a gordura que as rodeia, na forma de bens, consumidos ou de patrimônio, não é mais sinal de riqueza inteligente.

Porque essa riqueza já não cabe no mundo. As cidades vivem com suas aortas entupidas de automóveis, a atmosfera envenenada por dióxido de carbono. O organismo social padece das doenças que convenceram as pessoas a reduzirem suas cinturas. Também porque a segunda lei da termodinâmica deixa claro que nada pode crescer infinitamente em um mundo finito, com recursos naturais esgotáveis.

Depois de dois séculos de civilização industrial, principalmente na segunda metade do século XX, e muito mais com a globalização das últimas décadas, o PIB se transformou no símbolo do avanço civilizatório. Não importa se a compra vai endividar, comprometer o consumo de coisas mais essenciais à família, tirar as crianças de uma boa escola.

Não importa também se as horas perdidas no trânsito aumentam, ou se os engarrafamentos consomem tempo de vida ou provocam angústias e perdas. Como o consumo de combustível eleva o PIB, o engarrafamento passa a impressão de que a sociedade está mais rica, apesar da diminuição da felicidade geral.

Na medida em que percebemos o "desvalor" dos bens que engordam as cidades e as casas, tomamos consciência da possibilidade e da conveniência de aumentar o bem-estar graças ao decrescimento da produção de bens materiais e privados, com aumento na oferta de bens e serviços públicos e culturais. Diante da crise ecológica previsível e das insatisfações sociais já sentidas, surgiu, especialmente na Europa, um movimento pelo "decrescimento-feliz".

O conceito de decrescimento, atualmente debatido na Europa, substitui a ideia do crescimento ilimitado pela meta de uma sociedade melhor, que consume menos. É claro que esse decrescimento não se aplica linearmente em um mundo onde 20% consomem 85% dos recursos naturais. Em consequência, 80% da população vivem com menos do que o necessário.

Em 1980, a Editora Paz e Terra publicou um livro com o título "Desordem do progresso — O fim da era dos economistas", logo traduzido em Londres com o título "The End of Economics".

Há poucas semanas, o jornalista Clóvis Rossi publicou um artigo com o título "Felicidade Nacional Bruta", em que comenta o movimento mundial em busca de um novo indicador para o progresso. O IDH — Índice de Desenvolvimento Humano — já é levado a sério. O governo francês pediu e já recebeu uma proposta, elaborada por economistas, visando a um indicador que substitua o PIB.

É inevitável que a ideia de decrescimento-feliz ganhe adeptos. Que se espalhe e seja aceita tanto quanto a ideia de crescimento dominou o século XX. Antes disso, poderá ser recusada e ridicularizada, assim como a industrialização enfrentou fortes resistências do mercantilismo e da fisiocracia.

Mas prevaleceu, porque representava a força do progresso. O decrescimento-feliz vai prevalecer graças à fragilidade da atual concepção de progresso para enfrentar a força da natureza e as insatisfações existenciais. Não deve demorar muito para que o crescimento econômico passe a ser visto com o desconforto que hoje recai sobre a gordura do corpo e o tamanho das cidades.

*Cristovam Buarque é Professor da Universidade de Brasília e Senador pelo PDT/DF