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quarta-feira, 22 de dezembro de 2010

Bolívia reconhece oficialmente Estado palestino independente

O presidente da Bolívia, Evo Morales, anunciou nesta quarta-feira (22) o reconhecimento da Palestina como Estado independente e soberano, como fizeram Brasil e Argentina este mês.

“Assim como outros países, como o Brasil, a Bolívia receonhece o Estado palestino, sua independência, sua soberania”, disse o presidente boliviano, Evo Morales, em uma coletiva de imprensa na sede do governo, segundo a rede de televisão venezuelana Telesur.

Morales disse também que a decisão foi tomada após análise do governo, que constatou “graves problemas que os palestinos têm”, com os Estados vizinhos, e que “a Bolívia não quer continuar esperando a solução de braços cruzados”.

“A Bolívia não podia mais esperar diante dos problemas de direitos humanos, temas territoriais, temas de soberania que a Palestina precisa enfrentar”, disse Morales.

Na coletiva, Morales disse também que Israel “comete um genocídio” contra o povo palestino e pediu a outros países e organismos internacionais que assumam a responsabilidade para tentar conter Israel. Em janeiro de 2009, Morales rompeu relações com Israel como resposta à ofensiva militar na Faixa de Gaza, que deixou milhares de mortos.

Na semana passada, durante a 40ª cúpula do Mercosul em Foz do Iguaçu, o presidente boliviano havia anunciado que seu país reconheceria o Estado palestino. “A Bolívia enviará uma carta ao presidente da Palestina reconhecendo-a como Estado independente e soberano”, adiantou Morales.

Onda de reconhecimento


O reconhecimento boliviano ao Estado Palestino independente com as fronteiras de 1967 ocorre depois de Brasil e Argentina tomarem a mesma decisão no início de dezembro. O Uruguai formalizará as relações diplomáticas com a Palestina no começo de 2011, com a instalação de uma embaixada.

O presidente palestino, Mahmud Abbas, expressou satisfação com o reconhecimento por parte da Bolívia, segundo a agência palestina Wafa.

O negociador palestino, Saeb Erekat, também agradeceu “ao povo irmão boliviano e ao seu presidente, Evo Morales” e afirmou que o reconhecimento “é um grande passo na direção correta, alinhado com o Direito Internacional e coerente com a política exterior dos países latino-americanos”.

Com informações do Opera Mundi




Fonte - vermelho.org

domingo, 12 de dezembro de 2010

Entrevista com Julian Assange: quem é e o que quer o Wikileaks

Veja a entrevista, com legendas em português, com Julian Assange, fundador do Wikileaks, realizada pelo TED em julho deste ano, e entenda os motivos da caçada do governo americano ao site mais famoso do mundo. Assange também revela como o Wikileaks conseguiu divulgar mais informações sigilosas do que todas as outras mídias juntas em todo o mundo. Vale à pena ver a entrevista até o fim.

sexta-feira, 10 de dezembro de 2010

Assembleia Nacional da Venezuela aprova Lei do Poder Popular

A Assembleia Nacional da Venezuela sancionou na noite de quinta-feira (9) a Lei Orgânica do Poder Popular, que dá as bases para que as comunidades organizadas possam exercer o pleno direito à soberania, à democracia participativa protagonista e seja corresponsável em formas de auto-governo exercendo de maneira direta o poder. 

   
Deputados aprovam lei na Assembleia Nacional
O artigo 7 da referida lei estabelece que uma das finalidades do poder popular é impulsionar o fortalecimento da organização do povo, em função da consolidação da democracia protagonista revolucionária e construir as bases para a sociedade socialista, democrática, de direito e de justiça.

Além disso, este instrumento estabelece a geração das condições para garantir que a iniciativa popular, no exercício da gestão social, assuma funções, atribuições e competências de administração, prestação de serviços e execução de obras. 

O artigo 9 indica que as organizações do poder popular são as diferentes formas do povo organizado que reúnem cidadãos e cidadãs com objetivos e interesses comuns em função de superar dificuldades e promover o bem-estar coletivo. 

Já o artigo 29 da Lei Orgânica do Poder Popular estabelece que os órgãos, entes e instâncias do Poder Público devem adotar medidas para permitir às organizações produtivas de propriedade social gozar de prioridade e preferência nos processos de contratação pública para a aquisição de bens, prestação de serviços e execução de obras. 

A esse respeito, o presidente da Comissão Permanente de Participação Cidadã da Assembleia Nacional, deputado Ulisses Daal, assinalou que com este instrumento se constrói a base legal para que as pessoas, através dos meios de participação estabelecidos na Constituição, possam exercer de maneira direta funções de governo e alcançar o desenvolvimento pleno da soberania. 

“Trata-se de pôr em prática o que estabelece a Constituição quanto à participação direta, ao exercício direto de funções de governo e de desenvolvimento pleno da soberania com instância de participação em nível de governo, entidades econômicas, controladoria social, enfim, todos os espaços e âmbitos da sociedade”, assegurou o legislador. 

Por outro lado, Daal descartou que este novo instrumento legal violente o estabelecido na Carta Magna, tal como o que haviam apontado os deputados de oposição. Para ele, a lei é a afirmação do coletivo que impulsiona propostas de melhorias sociais. 

A aprovação da Lei do Poder Popular representa um grande passo adiante no processo revolucionário venezuelano. Impulsiona a democracia popular, cria bases sólidas para a edificação de um sistema político de novo típo, antípoda das democracias burguesas. O fortalecimento do poder popular venezuelano contrasta com as tendências contemporâneas de hipertrofia dos poderes da burguesia monopolista e financeira aliadas do imperialismo.

Ao mesmo tempo, o fortalecimento da Revolução Bolivariana na Venezuela é um estímulo para o avanço das lutas democráticas e patrióticas antiimperialistas em toda a região da América Latina e Caribe.


 Agência Venezuelana de Notícias.

sábado, 27 de novembro de 2010

Unasul na defesa da soberania Sul-Americana

No encontro que marcou sua despedida da Unasul (União de Nações Sul-Americanas), o presidente brasileiro fez duras críticas aos Estados Unidos e ao FMI.

Os líderes do bloco aprovaram sexta-feira (26) a criação de um protocolo contra os golpes militares na América do Sul, prevendo sanções econômicas e políticos aos governos que forem impostos de forma antidemocrática. Na região, sempre é bom lembrar, as conspiração golpistas passam invariavelmente pelas embaixadas dos EUA.

O protocolo democrático estabelece a suspensão, do âmbito da Unasul, dos países que sofram golpes de Estado e autoriza os países vizinhos a aplicar um bloqueio comercial.

Contra o golpismo
Elaborada pelo Equador, que passou a presidência temporária do bloco à Guiana, a proposta chegou a gerar desentendimento entre os chanceleres da região sobre seus critérios de aplicação. Mas o documento final acabou sendo aprovado pelos presidentes.

"Banir os golpes de Estado da América do Sul – e temos que banir de toda a América Latina – é um compromisso da maior importância, e a Unasul mostrou que pode ajudar", afirmou o chanceler brasileiro, Celso Amorim, a jornalistas em Georgetown.

A seu ver, a medida aprovada pelo bloco pode ajudar a evitar o efeito cascata de desestabilização na região, tendo como precedente a deposição do presidente hondurenho Manuel Zelaya, no ano passado.

Para Amorim, o mau exemplo de Honduras contribuiu para que os presidentes reagissem imediatamente durante a recente crise no Equador, que viveu, no final de setembro, uma tentativa de golpe contra o presidente Rafael Correa.

Antes de Correa, foram vítimas de tentativas golpistas os presidentes da Venezuela (abril de 2002) e da Bolívia (2008). Nos dois casos, os golpistas foram derrotados. Já em Honduras, os “gorilas” acabaram vitoriosos em 2009. As embaixadas norte-americanas tiveram participação ativa em todos esses movimentos.

"A carta democrática da Unasul será fundamental para afastar riscos à ordem institucional na região", afirmou Lula em discurso na 4ª Cúpula da Unasul, em Georgetown, capital da Guiana

Elites submissas
"O que é importante é que não se pode abrir mão, em momento algum, de construir uma América do Sul forte, sem analfabetos, sem desnutrição, com avanço científico e tecnológico. Mas, sobretudo, uma América do Sul onde cada cidadão sul-americano tenha orgulho de ser do jeito que nós somos."

Ao enaltecer a Unasul, Lula criticou os governantes sul-americanos das décadas de 1980 e de 1990 por não terem avançado na integração regional e também por terem aceitado os modelos econômicos ditados pelo Fundo Monetário Internacional (FMI). Esses programas, com o mesmo caráter reacionário dos que estão sendo aplicados hoje na Grécia e Irlanda, eram vazios de conteúdo social, na opinião do presidente.

Ele também disse sentir-se ofendido quando via, no passado, fotos nos jornais dos técnicos do FMI desembarcando no Brasil. ao final de cada ano, para negociar as condições de novos empréstimos. Para ele, esses governos agiram de forma "submissa às elites" e desprezaram o conceito de soberania.
"Alguns países precisaram ser refundados", declarou Lula, valendo-se de um termo caro aos líderes do bolivarianismo - além de Chávez, o boliviano Evo Morales e o equatoriano Rafael Correa.

Nova etapa

Lula voltou a criticar a reação dos EUA ao anúncio do acordo na área nuclear entre o Brasil, a Turquia e o Irã, em maio passado. Afirmou que os EUA jamais poderão resolver o contencioso com o Irã porque o país imperialista é um "criador de problemas".

A Unasul inicia uma nova etapa, com a Guiana na presidência e o compromisso de dar novos passos para a integração regional e a consolidação da região como zona de paz. O relatório do presidente equatoriano, Rafael Correa, ao inaugurar a IV Cúpula em Georgetown em presença de seus homólogos da Argentina, Brasil, Colômbia, Guiana, Paraguai, Suriname, Venezuela e os chanceleres de Bolívia, Chile, Peru e Uruguai, traçou a pauta do encontro.

Uma ovação fechada foi a melhor homenagem ao primeiro Secretário Geral do bloco regional, o ex-presidente argentino, Néstor Kirchner, falecido recentemente e que recebeu o reconhecimento póstumo de todos no Centro Internacional de Convenções da Guiana.

Protocolo democrático
Ainda não se sabe quando se dará sua substituição até a próxima reunião dos mandatários em Mar del Plata, Argentina. A IV Cúpula esteve carregada de notícias transcendentes, como a aprovação do Protocolo Democrático para evitar futuras tentativas de golpes de Estado.

O documento aprovado foi de consenso, a única mudança realizada foi o de usar "protocolo" em lugar de "cláusula" que foi o termo utilizado pelos Chanceleres. O mandatário da Guiana, Bharrat Jagdeo, ao assumir a presidência pró témpore da Unasul destacou a importância de que este mecanismo de integração seja incondicional na aplicação do protocolo democrático lembrado por unanimidade.

"Independentemente das ideologias dos países que tenham suas democracias ameaçadas, afirmou Jagdeo, temos que assegurar que isto (golpes de Estado) não se passe em nossa região".

Reconciliação 
Ao final do encontro outra notícia inesperada foi o anúncio de Correa e do presidente colombiano, Juan Manuel Santos, da restauração plena de suas relações, interrompidas após o bombardeio colombiano a Angostura em março de 2008.

"O destino tem que ser traçado, não sofrido, os desafios são grandes, mas é maior ainda nossa esperança", afirmou o presidente pró témpore que sai ao vislumbrar uma região de paz, sem bases militares estrangeiras e capaz de dirigir por si mesma seus próprios conflitos.

Fonte 

redação vermelho.org.br , com agências

terça-feira, 23 de novembro de 2010

Noam Chomsky: As 10 estratégias de manipulação midiática

O professor de Linguística no Instituto de Tecnologia de Massachussetts, Noam Chomsky, elaborou uma lista das "10 Estratégias de Manipulação" através da mídia. O Mundo de Fato publica abaixo.

Manipulação da mídia
A manipulação da mídia
10 Estratégias de Manipulação

Por Noam Chomsky

A estratégia da distração
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O elemento primordial do controle social é a estratégia da distração, que consiste em desviar a atenção do público dos problemas importantes e das mudanças decididas pelas elites políticas e econômicas, mediante a técnica do dilúvio ou inundação de contínuas distrações e de informações insignificantes.

A estratégia da distração é igualmente indispensável para impedir que o público se interesse pelos conhecimentos essenciais, na área da ciência, da economia, da psicologia, da neurobiologia e da cibernética. "Manter a atenção do público distraída, longe dos verdadeiros problemas sociais, cativada por temas sem importância real. Manter o público ocupado, ocupado, ocupado; sem nenhum tempo para pensar; de volta à granja com outros animais (citação do texto "Armas silenciosas para guerras tranquilas").


Criar problemas e depois oferecer soluções

Esse método também é denominado "problema-ração-solução". Cria-se um problema, uma "situação" previsa para causar certa reação no público a fim de que este seja o mandante das medidas que desejam sejam aceitas.

Por exemplo: deixar que se desenvolva ou intensifique a violência urbana, ou organizar atentados sangrentos, a fim de que o público seja o demandante de leis de segurança e políticas em prejuízo da liberdade. Ou também: criar uma crise econômica para forçar a aceitação, como um mal menor, do retrocesso dos direitos sociais e o desmantelamento dos serviços púbicos.

A estratégia da gradualidade 


Para fazer com que uma medida inaceitável passe a ser aceita basta aplicá-la gradualmente, a conta-gotas, por anos consecutivos. Dessa maneira, condições socioeconômicas radicalmente novas (neoliberalismo) foram impostas durante as décadas de 1980 e 1990. Estado mínimo, privatizações, precariedade, flexibilidade, desemprego em massa, salários que já não asseguram ingressos decentes, tantas mudanças que teriam provocado uma revolução se tivessem sido aplicadas de uma só vez.

A estratégia de diferir
Outra maneira de forçar a aceitação de uma decisão impopular é a de apresentá-la como "dolorosa e desnecessária", obtendo a aceitação pública, no momento, para uma aplicação futura. É mais fácil aceitar um sacrifício futuro do que um sacrificio imediato. Primeiro, porque o esforço não é empregado imediatamente.

Logo, porque o público, a massa tem sempre a tendência a esperar ingenuamente que "tudo irá melhorar amanhã" e que o sacrifício exigido poderá ser evitado. Isso dá mais tempo ao público para acostumar-se à ideia de mudança e de aceitá-la com resignação quando chegue o momento.

Dirigir-se ao público como se fossem menores de idade

A maior parte da publicidade dirigida ao grande público utiliza discursos, argumentos, personagens e entonação particularmente infantis, muitas vezes próximos à debilidade mental, como se o espectador fosse uma pessoa menor de idade ou portador de distúrbios mentais.

Quanto mais tentem enganar o espectador, mais tendem a adotar um tom infantilizante. Por quê? "Se alguém se dirige a uma pessoa como se ela tivesse 12 anos ou menos, em razão da sugestionabilidade, então, provavelmente, ela terá uma resposta ou ração também desprovida de um sentido crítico (ver "Armas silenciosas para guerras tranquilas")".

Utilizar o aspecto emocional mais do que a reflexão
Fazer uso do aspecto emocional é uma técnica clássica para causar um curto circuito na análise racional e, finalmente, ao sentido crítico dos indivíduos. Por outro lado, a utilização do registro emocional permite abrir a porta de aceeso ao inconsciente para implantar ou enxertar ideias, desejos, medos e temores, compulsões ou induzir comportamentos...

Manter o público na ignorância e na mediocridade


Fazer com que o público seja incapaz de compreender as tecnologias e os métodos utilizados para seu controle e sua escravidão. "A qualidade da educação dada às classes sociais menos favorecidas deve ser a mais pobre e medíocre possível, de forma que a distância da ignorância que planeja entre as classes menos favorecidas e as classes mais favorecidas seja e permaneça impossível de alcançar (ver "Armas silenciosas para guerras tranquilas").

Estimular o público a ser complacente com a mediocridade 

Levar o público a crer que é moda o fato de ser estúpido, vulgar e inculto.

Reforçar a autoculpabilidade

Fazer as pessoas acreditarem que são culpadas por sua própria desgraça, devido à pouca inteligência, por falta de capacidade ou de esforços. Assim, em vez de rebelar-se contra o sistema econômico, o indivíduo se autodesvalida e se culpa, o que gera um estado depressivo, cujo um dos efeitos é a inibição de sua ação. E sem ação, não há revolução!

Conhecer os indivíduos melhor do que eles mesmos se conhecem
No transcurso dos últimos 50 anos, os avançosacelerados da ciência gerou uma brecha crescente entre os conhecimentos do público e os possuídos e utilizados pelas elites dominantes. Graças à biologia, à neurobiologia e à psicologia aplicada, o "sistema" tem disfrutado de um conhecimento e avançado do ser humano, tanto no aspecto físico quanto no psicológico.

O sistema conseguiu conhecer melhor o indivíduo comum do que ele a si mesmo. Isso significa que, na maioria dos casos, o sistema exerce um controle maior e um grande poder sobre os indivíduos, maior do que o dos indivíduos sobre si mesmos.

Fonte: Argenpress, reproduzido por dital

sábado, 20 de novembro de 2010

Cristovam Buarque: Gordura e crescimento

Gordura e superpopulação deixaram de ser sinais de riqueza inteligente, tanto para cidades quanto para pessoas. Mas as pessoas ainda resistem em perceber que a gordura que as rodeia, na forma de bens, consumidos ou de patrimônio, não é mais sinal de riqueza inteligente.


por Cristovam Buarque*

Durante séculos, acreditamos que as cidades ficavam melhores à medida que aumentavam. Faz pouco tempo, percebemos a necessidade de reduzir as cidades, para viver melhor fora das megalópoles. Já é possível ser mais feliz em cidades menores.

Também durante séculos, acreditamos que as mulheres e os homens gordos eram mais saudáveis e mais ricos, carregando no corpo as provas da riqueza, as lembranças do prazer de comer e o fim da angústia da fome. Hoje, pelo contrário, o símbolo da riqueza e da beleza é a esbeltez. Nas sociedades modernas, são os pobres que engordam; os ricos gastam fortunas para emagrecer.

Gordura e superpopulação deixaram de ser sinais de riqueza inteligente, tanto para cidades quanto para pessoas. Mas as pessoas ainda resistem em perceber que a gordura que as rodeia, na forma de bens, consumidos ou de patrimônio, não é mais sinal de riqueza inteligente.

Porque essa riqueza já não cabe no mundo. As cidades vivem com suas aortas entupidas de automóveis, a atmosfera envenenada por dióxido de carbono. O organismo social padece das doenças que convenceram as pessoas a reduzirem suas cinturas. Também porque a segunda lei da termodinâmica deixa claro que nada pode crescer infinitamente em um mundo finito, com recursos naturais esgotáveis.

Depois de dois séculos de civilização industrial, principalmente na segunda metade do século XX, e muito mais com a globalização das últimas décadas, o PIB se transformou no símbolo do avanço civilizatório. Não importa se a compra vai endividar, comprometer o consumo de coisas mais essenciais à família, tirar as crianças de uma boa escola.

Não importa também se as horas perdidas no trânsito aumentam, ou se os engarrafamentos consomem tempo de vida ou provocam angústias e perdas. Como o consumo de combustível eleva o PIB, o engarrafamento passa a impressão de que a sociedade está mais rica, apesar da diminuição da felicidade geral.

Na medida em que percebemos o "desvalor" dos bens que engordam as cidades e as casas, tomamos consciência da possibilidade e da conveniência de aumentar o bem-estar graças ao decrescimento da produção de bens materiais e privados, com aumento na oferta de bens e serviços públicos e culturais. Diante da crise ecológica previsível e das insatisfações sociais já sentidas, surgiu, especialmente na Europa, um movimento pelo "decrescimento-feliz".

O conceito de decrescimento, atualmente debatido na Europa, substitui a ideia do crescimento ilimitado pela meta de uma sociedade melhor, que consume menos. É claro que esse decrescimento não se aplica linearmente em um mundo onde 20% consomem 85% dos recursos naturais. Em consequência, 80% da população vivem com menos do que o necessário.

Em 1980, a Editora Paz e Terra publicou um livro com o título "Desordem do progresso — O fim da era dos economistas", logo traduzido em Londres com o título "The End of Economics".

Há poucas semanas, o jornalista Clóvis Rossi publicou um artigo com o título "Felicidade Nacional Bruta", em que comenta o movimento mundial em busca de um novo indicador para o progresso. O IDH — Índice de Desenvolvimento Humano — já é levado a sério. O governo francês pediu e já recebeu uma proposta, elaborada por economistas, visando a um indicador que substitua o PIB.

É inevitável que a ideia de decrescimento-feliz ganhe adeptos. Que se espalhe e seja aceita tanto quanto a ideia de crescimento dominou o século XX. Antes disso, poderá ser recusada e ridicularizada, assim como a industrialização enfrentou fortes resistências do mercantilismo e da fisiocracia.

Mas prevaleceu, porque representava a força do progresso. O decrescimento-feliz vai prevalecer graças à fragilidade da atual concepção de progresso para enfrentar a força da natureza e as insatisfações existenciais. Não deve demorar muito para que o crescimento econômico passe a ser visto com o desconforto que hoje recai sobre a gordura do corpo e o tamanho das cidades.

*Cristovam Buarque é Professor da Universidade de Brasília e Senador pelo PDT/DF

quinta-feira, 18 de novembro de 2010

A Guerra dos Botões

Sidnei Liberal *

(Caro Marquinho) O poder da mídia está bem mais acima do que o poder eventual de um Cidadão Kane, um Roberto Marinho ou mesmo um Guillermo Zuloaga. O problema maior é o controle da comunicação que no mundo todo está circunscrito a meia dúzia de megaempresas.

Refiro-me à televisão, ao livro, jornal, revista, cinema, rádio, a despejar em nossas cabeças, já muito ocupadas com o cotidiano, a notícia já selecionada, conforme mostra “A Caixa de Sapatos de William Bonner”, postado no Boletim HSLiberal ¹. É desse modo que recebemos, muitas vezes de forma descuidada, a informação que outros interesses produzem. E falo apenas daqueles que, como nós, lê, ouve e vê com alguma criticidade. Imagine aqueles que nem tempo tem para pensar.

Recorrer à Justiça? Primeiro, ela nunca fará, como nunca fez, a reposição justa por um dano causado pelo desproporcional poder midiático. A notícia irresponsavelmente dada, sem a apuração profissional da cartilha jornalística, não tem o seu desmanche garantido, mesmo que desminta em igual tamanho e lugar. Nem há dinheiro que pague uma difamação, uma calúnia, um dano moral. E veja que a não apuração tem sido a tônica mundial, com reclamos que vão de Obama a Chávez. Em segundo lugar, os donos da Justiça têm o mesmo DNA que os donos da comunicação, no mundo inteiro.

Imagine o estrago que fazem, em escala mundial, os meios de comunicação que, como você bem diz, “pode criar heróis ou bandidos, levar uma pessoa ao sucesso ou apeá-la dele, santificar ou satanizar grupos ou indivíduos”. E quem são os donos dessa mídia pós-derrocada da União Soviética, num mundo não mais bipolar? Hoje, o partido único, que você tanto teme, tem sede em Washington. E quando falo de partido, estou falando do Mercado, do deus-mercado. Mas, também poderia estar falando de único partido no poder nos EUA. Ou os Democratas e Republicanos têm alguma diferenciação ideológica entre si?

A guerra e a arrogância de Obama são diferentes ou mais amenas do que a de Bush? Diminuíram ou aumentaram os esforços da guerra imperialista de ocupação e de alteração da geopolítica mundial? Aumentaram ou diminuíram os poderes dos órgãos multipolares que garantiam certo equilíbrio, certa limitação ao insaciável expansionismo bélico de Washington?

Diante de tanto poder, é desprezível a discussão sobre uma pretensa limitação da mídia na Venezuela. Recorrentes divulgações da imprensa brasileira dizem que a imprensa de Caracas não pode se manifestar contra o governo. Os fatos históricos não são assim. Ali, a mídia privada, que é a grande maioria, pregou explicitamente durantes meses, diariamente, em todos os canais e em todos os horários, a deposição do governo. E a mídia conseguiu o golpe, apeando do poder o presidente eleito pelo voto democrático. Com ajuda de Washington, documentadamente. Veja (não deixe de ver) o vídeo “A revolução não será televisionada”², de cineastas irlandeses. Ou “A Guerra contra a Democracia”³, do premiado jornalista John Pilger. Não sejamos apressados, caro Marquinho, em julgar o processo venezuelano.
Tampouco não nos apressemos em crer, sem criticidade, os mitos e exageros adrede plantados em livros, jornais, cinemas, revistas, televisões, rádios, sobre os processos da antiga União Soviética, da Revolução Cultural chinesa, da Revolução Cubana ou do processo cambojano. Essa visão distorcida e recorrente tem um objetivo muito claro: esconder o outro lado da História. Uma cortina de fumaça esconde a verdadeira dimensão do nazismo, cujas cifras de extermínio, 6 milhões de judeus, são cotejadas com supostos 60 milhões de mortes creditadas a Stalin. A discussão do tema extermínio esconde as mortes praticadas contra a resistência de nações invadidas em sua soberania pelas guerras de expansão e de conquistas de bases militares e de petróleo.

Veja, caro Marquinho, que quando você fala de Hiroshima e Nagasaki, não por sua culpa, não aparece a assinatura na terrível obra macabra com que os Estados Unidos da América inauguraram seus brinquedos de destruição em massa. Milhares de vidas destruídas de uma só vez, outras tantas condenadas a doenças fatais pelo resto de suas vidas. Até parece que foi fruto de uma fatalidade. Mas, não foi. Foi tio SAM quem cortou a fita simbólica da Era Nuclear. Hoje, EUA declaram ter 5 mil e tantas ogivas nucleares, fora as não contabilizadas, por não se submeterem ao crivo da AIEA. Falo das que Washington assiste “tecnicamente”, na Índia, no Paquistão, em Israel.

Por falar em Israel, Intifada é, do lado palestino, “A Guerra dos Botões”4, diante do despejar de mísseis judeus numa população de velhos, crianças e mulheres, encurralada no gueto de Gaza. Ou mísseis ianques nos povoados da Coréia, do Vietnã, antes, do Iraque, do Afeganistão, hoje.

E você sabe, caro Marquinho, de que lado estão os pouquíssimos donos de quase todos o meios de comunicação no mundo?

(1) http://boletimhsliberal.blogspot.com/search?updated-min=2009-01-01T00%3A00%3A00-02%3A00&updated-max=2010-01-01T00%3A00%3A00-02%3A00&max-results=33
(2) http://www.google.com/url?q=http://www.youtube.com/watch%3Fv%3DaQu8ic0WRXo&source=video&vgc=rss&usg=AFQjCNGAnyXoOoAZ_6WE4hKLqmxEREfbvQ
(3) http://www.youtube.com/watch?v=zP1gBNjpshA
(4) Filme clássico do cinema francês, de um lirismo impressionante, dirigido por Yves Robert, em1962, baseado na obra do escritor francês Louis Pergaud, “La Guerre des Boutons” (1913).

Unasul aguarda adesão de nono país para efetivar o bloco

A existência jurídica da União das Nações Sul-Americanas (Unasul) está cada vez mais próxima. No dia quatro de novembro, o Suriname se tornou o oitavo país a ratificar o Tratado Constitutivo do bloco. Com isso, o país se uniu oficialmente à Argentina, Bolívia, Chile, Equador, Guiana, Peru e Venezuela na espera pelo nono país, aquele que dará vida jurídica à Unasul.


Segundo informações do Ministério de Relações Exteriores, Comércio e Integração do Equador, país que tem a presidência temporária da Unasul, o chanceler do Suriname, Winston Guno Lackin, informou, por telefone, ao chanceler equatoriano Ricardo Patiño sobre a decisão. Contudo, a notícia só foi divulgada oficialmente por Patiño na última sexta-feira, dia 12.

Novo secretário-geral


A expectativa agora é pela adesão de mais um país, pois a Unasul estabelece que pelo menos nove dos seus 12 países membros ratifiquem o Tratado Constitutivo do bloco para sua entrada em vigor. Espera-se que a adesão do nono país aconteça em breve, pois no próximo dia 24 tem início a cúpula da Guiana, quando este país receberá, do Equador, a presidência do bloco. O Encontro será realizado na Cidade de Georgetow (Guiana) e seguirá até dia 26.

Nesta mesma ocasião, os países membros deverão eleger um secretário geral para suceder o ex-presidente argentino Néstor Kirchner, falecido no dia 27 de outubro em virtude de um ataque do coração. Um dos candidatos é o ex-presidente do Uruguai, Tabaré Vázquez. Luiz Inácio Lula da Silva e Michelle Bachelet, ex-presidente do Chile, também são cogitados como candidatos para o cargo.

Ratificação


É provável que Colômbia ou Uruguai sejam os próximos a ratificar o Tratado. A fim de incentivar e acelerar esse processo Ricardo Patiño viajou, no mês de setembro, aos dois países. A nação colombiana já deu fortes indícios de que poderá ser o próximo, visto que em sessão plenária do Senado o projeto teve a aprovação de 68 legisladores. Os próximos passos são a aprovação da Câmara de Representantes e a sanção por parte do Executivo.

No Uruguai, a adesão ao Tratado também está sendo tema de debates. No ano passado, o projeto foi aprovado, mas recebeu apenas a adesão da Frente Ampla. Assim, a lei não foi sancionada e o processo voltou para a estaca zero. No status atual, o processo se encontra na Comissão de Assuntos Internacionais da Câmara de Deputados e pode chegar ao Executivo e ser finalizado até o final deste mês.

Em coletiva de imprensa realizada em Quito, no Equador, Patiño citou a situação do Uruguai e do Brasil e afirmou estar muito otimista com relação ao posicionamento desses países. O chanceler acredita que, em breve, todos os membros do bloco ratificarão o Tratado.

História

O bloco surgiu para fortalecer e integrar os países sul-americanos no que diz respeito a temas políticos, sociais, culturais e econômicos. Teve sua origem na Comunidade Sul-Americana de Nações (CSN), criada em dezembro de 2004, durante a III Reunião de Chefes de Estado e de Governo da América do Sul, realizada em Cusco, no Peru. No dia 16 de abril de 2007, na I Cúpula Energética Sul-Americana, realizada na Isla Margarita, Venezuela, decidiu-se batizar o novo processo de integração como "União de Nações Sul-Americanas".

A confirmação da vontade dos chefes de Estado sul-americanos foi feita em 23 de maio de 2008, em Brasília, capital Federal do Brasil, quando os 12 países membros (Argentina, Bolívia, Brasil, Colômbia, Chile, Guiana, Paraguai, Peru, Suriname, Uruguai, Venezuela e Equador) aprovaram o Tratado Constitutivo e decidiram que o bloco entraria em vigor após a ratificação de pelo menos nove países.

Fonte: Natasha Pitts, da Adital

segunda-feira, 1 de novembro de 2010

Tereza Cruvinel: quem é Dilma, a carta que Lula tirou da manga?

Dilma Vana Rousseff já teve muitas vidas, muitos nomes e muitos projetos de vida. O que ela nunca imaginou é que seria a primeira mulher brasileira a conquistar, pelo voto, o mais alto cargo da República, até agora ocupado só por homens. Ela foi eleita presidente com 55,5 milhões de votos, correspondentes a 56,01% dos votos válidos, derrotando José Serra, do PSDB, que teve 43,606 milhões de votos, ou 43,99% do total de votos válidos (com 99,56% das urnas apuradas).

Por Tereza Cruvinel, na EBC

Muita gente, dentro e fora do governo, também achava que isso seria impossível: embora a política tenha marcado toda a sua vida, Dilma nunca havia disputado antes uma eleição.

Dilma não tem jogo de cintura eleitoral”, “Dilma é durona e carrancuda”, “Dilma é uma técnica sem carisma”. “Dilma não tem trânsito entre os partidos e os políticos”. Tudo isso e muito mais foi dito sobre a então ministra-chefe da Casa Civil, quando, ainda em 2008, começou a circular a notícia de que o presidente Luiz Inácio Lula da Silva pensava nela como candidata a sua sucessão.

No segundo mandato, a aprovação do governo e a popularidade do presidente Lula alcançaram índices inéditos, e isso foi possível porque, depois de ajustar as contas públicas no primeiro mandato, a política econômica, combinada com a política de distribuição de renda e os programas sociais, começou a produzir excelentes resultados: a economia crescia, gerava mais empregos, a renda dos mais pobres aumentava, a desigualdade diminuía, o país se tornava melhor internamente e mais respeitado lá fora. Na era Lula, cerca de 28 milhões de pessoas deixaram a pobreza extrema e ascenderam socialmente.

Mas esse paraíso político foi precedido de um inferno zodiacal. No primeiro mandato esses resultados ainda não haviam aparecido. Além de ter feito um ajuste fiscal necessário, mas que atrasou a retomada do crescimento, o governo enfrentou escândalos que minaram a popularidade de Lula e do PT.

Os nomes fortes do partido, que poderiam ter sido alternativas sucessórias para 2011, foram todos queimados nas crises do primeiro mandato. José Dirceu, ex-chefe da Casa Civil, foi cassado no escândalo do mensalão, e o ex-ministro da Fazenda Antonio Palocci foi alvejado pela quebra do sigilo bancário do caseiro Francenildo.

Na substituição de Dirceu, Lula surpreendeu a todos ao descartar quadros políticos do PT e dos partidos aliados e convidar Dilma, então ministra de Minas e Energia, de perfil eminentemente técnico. Lula pediu-lhe um choque de gestão na Casa Civil e uma atuação mais gerencial e menos política. Era exatamente o que ela sabia fazer.

Mas esta não foi a primeira vez que Lula surpreendeu com o nome de Dilma. Ele a conhecera no Rio Grande do Sul, como secretária de Minas e Energia do governo do petista Olívio Dutra. Na montagem do primeiro ministério, em 2002, ele desautorizou um acordo já fechado por seu coordenador político José Dirceu com o PMDB e entregou a ela a pasta de Minas e Energia.

Ali, Dilma trabalhou duro para evitar um novo apagão elétrico, como o que houvera no governo de Fernando Henrique, desenvolveu o Programa Luz para Todos, planejou a construção de novas hidrelétricas e a diversificação da matriz energética brasileira. Essa dinâmica é que Lula queria na Casa Civil. E Dilma não o decepcionou. Passou a coordenar as ações de todo o governo e ganhou fama de durona. “Até parece que vivemos cercadas por homens meigos e delicados”, ironizou Dilma na época.

A ministra havia brigado pela redução do superávit fiscal para que sobrassem mais recursos para investimentos em obras de infraestrutura, que criam as bases para o crescimento de longo prazo, aquecem a economia e geram empregos. No final do primeiro mandato, já havia dinheiro para isso e ela elaborou o Programa de Aceleração do Crescimento (PAC), pedido por Lula.

O programa foi lançado em janeiro de 2007, nos primeiros dias do segundo mandato. O PAC previa investimentos de R$ 500 bilhões em quatro anos, em grandes obras de infraestrutura, como portos, ferrovias e hidrelétricas, gastos com obras em favelas e o financiamento habitacional maciço, como o programa Minha Casa, Minha Vida.

Foi na inauguração de obras de saneamento e habitação numa favela do Rio de Janeiro, o Complexo do Alemão, no dia 7 de março de 2008, que Lula começou a escolher sua sucessora. "A Dilma é uma espécie de mãe do PAC. É ela que cobra, junto com o Marcio Fortes [ministro das Cidades], se as obras estão andando. e agora vocês também vão ver o que é ser cobrado pela Dilma."

Em recente entrevista à TV Brasil Internacional, Lula nos contou, no intervalo da gravação, que naquele dia começou a amadurecer a ideia de que Dilma poderia ser a candidata que ele não tinha para a sucessão que se aproximava. A oposição tinha dois nomes fortes, Aécio Neves e José Serra, ambos já provados nas urnas.

Dilma não tinha experiência eleitoral, mas representava uma novidade. Era mulher, pensava o presidente. Se conseguisse transferir para ela uma parte de sua imensa popularidade, poderia elegê-la.

Ela surpreendeu-se com a confidência, mas não recusou a ideia. Dilma sabia de todas as dificuldades que seu nome enfrentaria, inclusive dentro do PT. Lula tratou disso com os dirigentes do partido. Dilma não era mesmo um quadro histórico, mas o partido também não tinha outro nome. Quem tinha a força era Lula e sua indicação foi prontamente aceita. O PT a escolheu oficialmente em fevereiro deste ano. Dilma deixou o governo, juntamente com dez ministros, em 31 de março para enfrentar a aventura eleitoral.

Muitos nomes, muitas Dilmas

Mas quem é esta mulher que, tendo pensando em ser bombeira ou trapezista, tendo enfrentado a prisão e a tortura por causa de suas ideias políticas, mas nunca tendo disputado uma eleição, torna-se a primeira presidente do Brasil?

Embora não tivesse mesmo disputado qualquer eleição antes, a política sempre foi o motor da vida de Dilma. Sua atuação começou no movimento estudantil, no segundo grau e depois na universidade, combatendo a ditadura militar. A militância a levará para a clandestinidade e para a prisão. Enfrentará a tortura nos porões do Dops (Departamento de Ordem Política e Social) e três anos de reclusão no Presídio Tiradentes.

Tudo começou em Belo Horizonte, onde ela nasceu em 14 de dezembro de 1947. Seu pai, Pedro Rousseff, foi um imigrante búlgaro. Chegou ao Brasil nos anos 30, casou-se com uma professora chamada Dilma e tiveram três filhos, formando uma típica família de classe média.

Dilma, a mais velha, estudou primeiro num colégio de freiras tradicional, o Sion, onde tomou gosto pelos livros, principalmente os de literatura. Há pouco tempo, ficou sabendo que só ela e mais três colegas do Sion seguiram carreiras profissionais. As outras tornaram-se donas de casa, como era o costume.

No ano de 1964, em que os militares derrubaram o presidente João Goulart, dando início à ditadura, Dilma entrou para o Colégio Estadual Central, foco da agitação estudantil secundarista da capital mineira. Três anos depois passa no vestibular para economia, na UFMG, e ingressa na organização esquerdista Polop, tornando-se uma líder estudantil importante, culta e combativa.

Nesse tempo aconteceram coisas importantes na vida de Dilma. Conquistou amigos que tem até hoje, como o ex-prefeito de Belo Horizonte Fernando Pimentel, e o hoje deputado José Aníbal, do PSDB. Namorou com Cláudio Galeno e com ele teve um casamento que durou pouco. A vida agitada e o mergulho que foi obrigada a dar na clandestinidade não ajudaram.

Nessa época, a Polop se transforma em Colina (Comando de Libertação Nacional), que irá se fundir com a Vanguarda Popular Revolucionária (VPR), formando a VAR-Palmares. A VAR-Palmares fez algumas ações armadas contra a ditadura, mas Dilma, que atuava em estratégia e planejamento, não participou de nenhuma delas. Na campanha, entretanto, essa passagem de sua vida foi muito explorada.

Na clandestinidade, como mandavam os manuais de segurança, Dilma usou vários codinomes. Chamou-se Luiza, Wanda, Marina, Estela, Maria e Lúcia. Separa-se de Galeno, que vai para o exílio, e conhece Carlos Franklin de Araújo, que vem a ser seu segundo marido e pai de sua filha Paula.

Em 1970, Dilma é presa e brutalmente torturada durante várias semanas. Depois é condenada a três anos de reclusão, tempo em que passou sobretudo no Presídio Tiradentes, onde o marido Carlos Araújo também cumpria pena em outra ala. Três anos depois, após serem libertados, constroem uma vida juntos no Rio Grande do Sul, onde nasce Paula, que no final do primeiro turno, dará a Dilma seu primeiro neto, Gabriel.

Em Porto Alegre, já em liberdade, Dilma consegue terminar o curso de economia e a seguir cursa o mestrado. Atua, com o marido, nos movimentos pela anistia e pela redemocratização. Ajudam a fundar no estado o PDT de Leonel Brizola.

Em 1986, o pedetista Alceu Collares elege-se prefeito de Porto Alegre e convida Dilma para ocupar a Secretaria Municipal de Fazenda. Collares elege-se governador em 1990 e ela se torna secretária estadual de Minas, Energia e Comunicação.

O governo de Collares era fruto de uma aliança entre o PDT e o PT, que se romperá em 1994. Dilma faz então a opção pelo PT, filiando-se ao partido. Outra aliança que se rompe nessa época é a matrimonial. Separa-se do marido Carlos Araújo, embora preservem grande amizade e cumplicidade até hoje. Foi como secretária de Minas e Energia que Dilma conheceu Lula e despertou seu interesse, valendo-lhe, mais tarde, a nomeação para a pasta de Minas e Energia.

Um câncer no caminho

A caminhada para a Presidência não foi fácil. Com a candidatura já definida por Lula e aceita pelo PT, Dilma descobre, no inicio de 2009, que tinha um câncer linfático. O anúncio da doença, no dia 25 de abril, foi uma decisão corajosa.

No primeiro momento, a candidatura foi dada como inviável. Ela poderia não vencer a doença e, mesmo que vencesse, o eleitorado poderia rejeitar seu nome, temendo o pior. Os médicos garantem chances de cura superiores a 90%. Dilma faz sessões de quimioterapia, perde o cabelo e usa peruca por uns tempos, sem interromper a rotina de trabalho na Casa Civil. No final do ano, os médicos a declaram curada.

No final de 2009, a sua saúde vai bem e a popularidade do presidente, melhor ainda. Dilma volta a um hospital, mas agora para cuidar da imagem. O conselho fora de Lula. Ela faz uma plástica e reaparece em público, em 2010, com a fisionomia mais jovem e descansada. Está começando a batalha eleitoral.

Mas ela começa em desvantagem. Em fevereiro deste ano, tinha uma média de 28% de preferência e José Serra, do PSDB, sempre mais de 40%. O primeiro empate acontece em maio deste ano, mas surge um fator inesperado – o crescimento da candidatura de Marina Silva, que trocara o PT pelo PV.

A campanha começa para valer em agosto e o presidente Lula entra em campo, garantindo a transferência de votos de que muita gente duvidava. Em 15 de maio deste ano, o instituto Vox Populi divulga a primeira pesquisa em que Dilma, com 38%, ultrapassa José Serra, com 35%.

Diferentes institutos apontam a vitória de Dilma no primeiro turno de 3 de outubro por mais de 50% dos votos, mas ela obtém apenas 47% dos votos. Os analistas apontam duas causas para o segundo turno. O crescimento da candidata Marina Silva, do PV, e uma forte onda de boatos, inclusive pela internet, acusando Dilma de ser a favor do aborto e do casamento entre homossexuais. Ela perde milhões de eleitores entre católicos e evangélicos.

No segundo turno, a campanha é agressiva, os candidatos sobem o tom nos debates e o presidente Lula volta à arena eleitoral. Mas desta vez ela alcança a maioria necessária e torna-se a primeira presidente eleita do Brasil.



Tereza Cruvinel - Vermelho.org

quarta-feira, 27 de outubro de 2010

WikiLeaks derruba a máscara do imperialismo



Uma das lendas mais notórias das guerras contemporâneas do imperialismo é a alegação de que as ações bélicas são “cirúrgicas”, “pontuais”, e evitam ataques e sofrimentos para a população civil.

Só os iludidos acreditam nisso. A mídia partidária do imperialismo não consegue esconder em seus noticiários as graves violações cometidas contra os povos; mesmo quando não são ditas palavras, as imagens publicadas sugerem a barbárie que o imperialismo faz questão esconder.

Desde julho, quando a página eletrônica WikiLeaks começou a divulgar documentos secretos, elaborados pelos soldados da tropa de ocupação do Iraque e do Afeganistão, pode-se ver com mais precisão a extensão do “moinho satânico” que o imperialismo impõe aos povos. Naquela ocasião, os documentos divulgados relatavam agressões contra a população civil e ações militares à margem da legislação internacional (que configuram, portanto, crimes de guerra) cometidos pelas tropas de ocupação comandadas pelos EUA principalmente no Afeganistão.

Desta vez, o enorme volume de documentos secretos do Pentágono (92 mil páginas) divulgados na semana passada pela WikiLeaks relata atrocidades cometidas durante a ocupação do Iraque, desde 2004 a 31 de dezembro de 2009.

São relatos escritos por militares das tropas de ocupação que descrevem um roteiro selvagem e desumano, que inclui o assassinato de civis numa escala muito superior à admitida oficialmente pelo governo de Washington e torturas generalizadas contra prisioneiros, praticadas por todos os agressores: soldados do Exército dos EUA, mercenários contratados para “segurança” dos comandantes da guerra e também pelo exército iraquiano formado e treinado pelos ocupantes de seu país.

Um exemplo da barbárie dos invasores foi o massacre, cometido em 16 de agosto de 2007 contra um povoado; um grupo de soldados das tropas de ocupação resolveu vingar-se de um ataque e bombardeou a população indiscriminadamente. Explodindo uma casa onde ocorria uma festa de casamento; seis pessoas morreram (entre elas quatro mulheres e um bebê) e três ficaram feridas (todas mulheres, uma grávida de nove meses).

Os documentos revelam a pratica sistemática de torturas (surras, choques elétricos, metais incandescentes, afogamentos) contra os prisioneiros, inclusive mulheres, cometidas também pelos três pilares da ocupação – as tropas invasoras, os matadores profissionais contratados por empresas de segurança como a Blackwater, e o exército pró-EUA do governo do Iraque.

Ações desse tipo, segundo o editor Julian Assange, do WikiLeaks, recheiam os relatórios secretos do Pentágono, e há descrição detalhada do assassinato de 2.000 iraquianos.

O lote de documentos agora publicados revela também que os militares dos EUA tentaram esconder a morte de 15 mil civis iraquianos. Ele revela um número total de 109 mil mortes, entre as quais 15 mil que nunca haviam sido reveladas!

A condenação das guerras constitui um clamor civilizatório antigo. A repulsa a agressões imperialistas cresceu, ao longo do século 20, depois das barbáries que a máquina de guerra nazista cometeu contra os povos. No início do século 21, é inaceitável que ações agressivas dessa natureza continuem sendo impostas aos povos que não aceitam submeter-se aos desígnios do imperialismo. Hoje, as atrocidades são cometidas sob a bandeira listrada dos EUA, com os mesmos objetivos predatórios de sempre: a submissão dos povos, a pilhagem de suas riquezas e o alcance de um arranho geopolítico mundial favorável à manutenção do mando imperial.

E impõe, como lembra o responsável pela revelação da brutalidade imperialista no Oriente Médio, Julian Assange, a única saída para o início da reconstrução da vida naquelas nações: a retirada das tropas de ocupação, que foram enviadas para lá com base em argumentos mentirosos e continuam lá à base de alegações falsas. Depois das revelações dos documentos secretos da barbárie, não há mais nenhuma justificação aceitável para que aquelas tropas continuem lá.

Editorial - Vermelho.org.br

domingo, 24 de outubro de 2010

O Rolo para os Tolos: Manipulação nas Eleições Presidenciais

Diorge Konrad *

Aquele que diz uma mentira não sabe a tarefa que assumiu, porque está obrigado a inventar vinte vezes mais para sustentar a certeza da primeira (Alexander Pope)

Muitas pessoas pensam que quem diz a verdade só precisa de coragem. Esquecem a segunda dificuldade, a que consiste em descobri-la. Não se pode dizer que seja fácil encontrar a verdade. Quando o escritor e dramaturgo alemão Bertolt Brecht escreveu isso, em “As cinco dificuldades para escrever a verdade”, sabia da luta de classes, conhecia a manipulação da informação no capitalismo, tinha sido escolado na sua Alemanha.

Após a eleição de Hitler e a ascensão do nazismo, em 1933, Brecht foi para um longo exílio. Nesse período viu o Incêndio do Reichstag, mentira do Nacional-Socialismo que deu plenos poderes ao terror de Estado. Em 27 de Fevereiro, um comando nazista ateou fogo no parlamento alemão e Hitler colocou a responsabilidade nos comunistas. A maioria dos alemães acreditou e apoiou a Lei da Autoridade, início do massacre ao Partido Comunista, aos judeus e democratas radicais.

De lá para cá se repete a frase do seu Ministro da Propaganda, Joseph Goebbels: De tanto se repetir uma mentira, ela acaba se transformando em verdade”. Há dúvida histórica sobre esta frase ser de Goebbels. No processo histórico, nenhum governo se mantém muito tempo apenas com propaganda ideológica, mentira ou repressão, é preciso muito mais. Sabem disso a Luftansa, a Bayer, a Krupp, a Wolkswagem e até a norte-americana IBM que sustentaram o Reich que queria ter mil anos.

Sabe-se que ódio nazista instrumentalizava a imprensa, o rádio e o cinema para a orquestração da mentira. Mas a estratégia era mais inteligente. A diretriz goebbeliana era trabalhar a meia verdade – a verossimilhança - e direcioná-la aos interesses do poder. Em seu decálogo havia outros princípios: 1) de simplificação - individualizar o adversário em um único inimigo; 2) da transposição - atribuir ao adversário os próprios erros ou defeitos: “Se não podes negar as más notícias, inventa outras que as distraiam”; 3) do exagero e desfiguração - converter qualquer anedota em ameaça grave; 4) da vulgarização: “Toda propaganda deve ser popular, adotando seu nível ao menos inteligente dos indivíduos, aos que se dirige”; 5) de orquestração - “A propaganda deve limitar-se a um número pequeno de ideias e repeti-las incansavelmente”; 6) de renovação - emitir constantemente informações e argumentos novos a um ritmo tal que, quando o adversário responda, o público está já interessado em outra coisa. As respostas do adversário nunca devem poder contrariar o nível crescente de acusações; 7) da verossimilhança - construir argumentos através dos chamados balões de ensaios ou de informações fragmentadas; 8) do silêncio - calar sobre as questões das quais não se tem argumentos e encobrir as noticias que favorecem o adversário; 9) da transfusão - a propaganda opera sempre a partir de uma mitologia nacional ou um complexo de ódios e prejuízos tradicionais; 10) Principio da unanimidade - convencer muitos, criando impressão de unanimidade.

O Brasil tem exemplos. O Plano Cohen, criação de integralistas brasileiros e do governo de Getúlio Vargas foi a farsa que ganhou as capas diárias de O Globo, entre outros, justificando o Golpe de Estado de 10 de novembrro de 1937 e nove anos de intensa repressão. Contra o próprio Vargas, entre 1951 e 1954, a UDN e Carlos Lacerda levaram ao suicídio de Vargas, um “cala boca!” à direita e seus aliados imperialistas.

Depois do liberalismo conservador de Jânio Quadros, a Campanha da Legalidade de 1961 garantiu Jango na Presidência, mas os escolados golpistas não desistiram. Na conjuntura das Reformas de Base, a burguesia multinacional e associada, a CIA e o Pentágono, como mostrou René Dreifuss, em 1964: a conquista do Estado, criaram um Estado-Maior Golpista. Da Legalidade até o Golpe Civil-Militar de 1964, a direita brasileira mentiu, desinformou, conquistou a pequena burguesia moralista com o discurso da corrupção e ameaça comunista. Com apoio de O Estado de São Paulo, Folha de São Paulo e O Globo, impediu o avanço da democracia e de mudanças estruturais: reformas agrária, urbana, universitária, administrativa e tributária.

Em 1989 dois projetos foram para o segundo turno. Mas as mentiras da “Renovação Nacional” do PRN derrotaram Lula e o neoliberalismo alçou vôo, um projeto nefasto que teve seu auge com o PSDB e o PFL, hoje DEM. Suas marcas foram e são tão profundas que oito anos de Governo Lula não rompeu o processo: a macro-política econômica dos tempos de FHC e a lógica privada e rentista ainda são hegemônicas. Mesmo assim, o liberalismo conservador e seu partido maior, a mídia golpista, não se contentam.

José Serra-Índio da Costa REPRODUZEM E SÃO A TÁTICA DA DIREITA BRASILEIRA. Manifestos que insinuam a ameaça à democracia e à liberdade de imprensa, idênticos ao do pré-1964, e a manipulação da mídia têm sido o mote de sua campanha eleitoral.

A História não pode esperar para dar a resposta tardia. Perdemos em 1937, em 1964, em 1989. Urge desmontar a farsa da mídia que está ao lado de José Serra, o ator-vítima que encena a vergonhosa ópera-bufa baseada na manjada trama engenhosa e ridícula de nossas classes dominantes, as quais jogam com o medo para impedir qualquer mudança no País.

A tentativa de colocar quebra de sigilo fiscal no colo do Governo Lula e da candidatura de Dilma, no lugar da disputa interna entre José Serra e Aécio Neves como pré-candidatos do PSDB à presidência, foi a tecla batida insistentemente no primeiro turno. O episódio de Campo Grande é a marca do segundo turno, se algo novo não aparecer até o último dia do mês. É vergonhosa e ridícula a manipulação de imagens e informações.

A bolinha de papel, a meia-verdade, transformou-se na mentira do rolo de fita adesiva no lugar de parte da cabeça de um tolo apoiador de Serra. Era o que faltava para o retorno da tática nazi-fascista ensinada por Goebbels e repetida à exaustão ao longo dos anos. Não foi diferente em 1989 com a compra de Miriam Cordeiro e a montagem do Jornal Nacional, após o último debate do segundo turno entre Lula e Collor, em 14 de dezembro.

A resposta é a derrota desta “onda reacionária”, em 31 de outubro de 2010. As eleições presidenciais centram a luta de classes e exigem o povo na rua: antes para a vitória eleitoral; depois para base da futura governabilidade, única voz que as classes dominantes temem e que colocam do lado popular a vacilante classe média e os fisiológicos governistas.

O nazismo se foi? Pelo que se vê na campanha eleitoral brasileira há uma rediviva permanência dessa diretriz em filhotes de Goebbels nas redações de alguns jornais, emissora de televisão e sítios de da internet, além do uso do telefone para mentir e intimidar. Ah, mas eles dirão que não sabem de nada! Resta a nós o conforto das palavras do saudoso Bertolt Brecht: "Aquele que não conhece a verdade é simplesmente um ignorante, mas aquele que a conhece e diz que é mentira, este é um criminoso".